domingo, 31 de julho de 2011

Conhece-te a Ti Mesmo - Krishnamurti



O Mensageiro da Estrela

Por J. Krishnamurti, tal como impresso na revista The Herald of Star no número de Maio de 1925

Penso que não existe tema mais interessante ou mais prometedor, ou de forma alguma mais excitante, do que o estudo de nós mesmos. Aos 15 ou 16 anos, estamos submersos em nós mesmos. Não há nada que nos interesse tanto. Depois apaixonamo-nos por alguém; mas ainda assim estamos extasiados com nós próprios. Há, descobrimos, muito mais inteligência no estudo de nós mesmos, e muito pouco pensamento dedicado aos outros. E de bom grado damos a uma quiromante 15 rupias para ela nos contar tudo sobre nós. E sentimo-nos bastante confortáveis com o pensamento de que iremos ser grandes um dia – sem, aparentemente, ter que lutar por essa grandeza. Existe apenas um tema que nos atrai e esse somos nós mesmos. Discutimo-nos, e de uma forma aprobatória consideramos como nos comportar, de que modo desenvolvermo-nos, e por aí em diante.
Parece-me que se pensarmos inteiramente deste ponto de vista, deste ponto que unicamente nos interessa a nós, não entenderemos porque é que existimos, ou porque qualquer coisa neste mundo, de todo, existe. Claro que é verdade que primeiro temos de nos compreender a nós mesmos antes de querer descobrir seja o que for sobre a vida em geral. Filosofia, religião e outros temas não possuem real valor, real controlo sobre um indivíduo, ou apenas têm uma pequena influência, quando somente apontam como podemos escapar a certas coisas, como evitar o mal, e por ai fora. Mas aqueles de nós que são membros da Star, ou pertencem a tais organizações, deverão ter a ideia de um plano definido que está a desenvolver-se.
Estamos em posição de examinar as coisas que nos são mais valiosas – coisas que produzem em nós o desejo de evoluir. Em todos nós existe o desejo de descobrir por nós mesmos até onde podemos compreender quem somos e o que nos afecta. A pessoa comum está de longe mais interessada nela mesma do que em qualquer outra. Luxúria, conforto, felicidade, tudo tem que apoiar os seus fins. Quando tudo foi feito para a satisfazer então somente pensa nos outros. Quando eu tiver comido e dormido o suficiente, voltar-me-ei para pensar nos outros. Esta é a visão comum. Se tiveste amor em abundância, ou felicidade, és levado a pensar no outro.
Mas para alcançar essa felicidade, devemos descobrir até onde nos encaixamos num plano definido. Devemos estar cientes de que há um plano em que cada um de nós tem um papel a representar, e devemos possuir a determinação na qual agiremos, com a qual deveremos criar o ambiente no qual caberemos – ou não; e se estivermos dispostos a procurar com a atitude correcta deveremos ser capazes de descobrir até onde nos encaixaremos nesse plano. Para mim, posso imaginar que os deuses eleitos disseram que Krishna deverá encaixar-se num certo plano estabelecido, e que o quer que seja que ele faça, não terá valor, e enquanto encaixar nesse plano, Krishna crescerá e será feliz. Eu estava interessado e observava-me a mim mesmo, e podia ver de ano para ano uma mudança definida, uma orientação definida, uma transformação definida e podia ver qual era o meu definido papel. E assim cada um de nós deverá descobrir que caminho percorrer e qual a especialidade a ter.
Acontece frequentemente que a maioria de nós está disposta a subir até ao altar e verter a nossa devoção. A devoção existe, em diversos graus, na maioria de nós, mas não pode nem deve satisfazer-nos. Se eu fosse ter com a Dr.ª Besant e lhe disesse: “Estou disposto a servi-la em qualquer das minhas capacidades. Estou disposto a sacrificar tudo e o meu único desejo é trabalhar para obter conforto, independência, e por aí fora,” ela diria, “Oh, muito bem; que capacidades trazes contigo. De que modo queres prestar serviço ao Mestre?” A devoção deve ter um escape na actividade física; e desta forma se tivermos de determinar qual o papel que cada um de nós tem de representar, antes de nos oferecermos, devemos descobrir quais as capacidades que temos. Quando para um Teósofo ou um membro da Star ou qualquer outro, o chamamento aparece como “sacrifica tudo e vem ao Mestre,” não é suficiente pedir ao Mestre que aceite somente a nossa devoção; devemos dar-lhe qualquer coisa que lhe permita guiar-nos. Por outras palavras, devemos trazer perante o Mestre certas capacidades e não aparecer apenas de mãos vazias. Se eu puder chegar junto do Mestre e dizer “Eu posso fazer isto ou aquilo, eu posso escrever ou pintar ou compor música ou representar,” Ele dirá: “Muito bem, esse é o teu caminho. Vai e procura, descobre quais são os teus talentos, e logo que os encontres, saberás como sofrer e servir.” Pois existem muito poucos que realmente conseguem dizer, “Eu posso fazer isto; ao longo desta linha reside o meu sacrifício ao serviço do Mestre.” Consideramos que nos sacrificámos quando terminamos sem algo do qual podemos facilmente abrir mão.
Se eu tivesse imaginado algo em particular que o Mestre quisesse realizado, eu tratá-lo-ia de outro modo. E se eu precisasse de riquezas, tê-las-ia acumulado, não para mim, mas para o Mestre, e ao acumula-las, saberia que tinha que me sacrificar, e tinha que suportar enormes sofrimentos e mal-entendidos. Mas é a atitude que conta. Estamos com medo de que as nossas capacidades não nos guiem pelo caminho que nos foi preparado. Assim temos que descobrir antes de servir realmente, de que maneira cada um de nós pode servi-Lo, de que modo podemos oferecer o nosso sacrifício, e ao descobrir qual o nosso caminho deveremos descobrir a qual tipo pertencemos, se ao tipo que vai para o mundo e se desenvolve no mundo, por assim dizer, ou é deixado numa estufa e evolui, como uma planta, igualmente cheio de força. Há pessoas que trabalham no mundo por vários anos, que trabalham e fazem de tudo sem descobrir qual o propósito da vida. Descobrem o seu propósito por acaso, mas acumularam tanto do que o mundo tem para dar que ao entrarem em contacto com as realidades espirituais abrem mão de tudo o que adquiriram, enquanto aqueles que cresceram numa estufa separados do mundo alcançam o objectivo por outro caminho.
Portanto tal não tem importância desde que tenhamos aprendido o que ambas as guerras de identidade podem oferecer, e não até então estarão aptos a servir o mundo. Imaginem apenas uma pessoa que é criada, diga-se, num templo onde é reprimida, onde desenvolve complexos. Assim que essa pessoa sai lá para fora para o mundo, tem a melhor das diversões; e é o mesmo com a pessoa que trabalha cá fora no mundo. Não podemos evoluir ao longo de uma linha definida. Devemos evoluir em todas as direcções e até lá não ajudamos e só atrapalharemos.
Tal como eu conheço o meu próprio caminho, também cada um de nós deverá descobrir o seu caminho e até essa descoberta ser feita não devemos estar prontos ou aptos para servir o Mestre. Aqueles de nós que têm imaginação, que em certo grau têm a capacidade de tomar uma visão impessoal da vida, podem descobrir isto. Mas a maioria de nós não têm o desejo de servir, nem o desejo de alcançar o seu caminho ou objectivo.
O nosso problema é que tal como no mundo exterior, temos os nossos direitos adquiridos. E desde que exista o elemento de egoísmo, não descobriremos o caminho. Cada um de nós quer que o Mestre desça até si; mas o que não aprendemos foi que, mesmo como imaginamos, se Ele descesse das nuvens, seríamos incapazes de O servir, porque não nos equipámos para Lhe prestar serviço.
Devemos descobrir de que maneira podemos servir, e isso implica a completa violação de nós mesmos, das nossas relações, etc. Não é que não tenhamos o desejo, nem a nostalgia que as grandes pessoas têm; mas em nós não é constante. Não existe aquela pressão contínua que nos mantêm a andar, a andar, a andar. Significa verdadeiro sacrifício, significa subjugar-nos em tudo e não deixar o ego (a personalidade, o eu) ficar-se por cima. Então deixaremos de distorcer as coisas para que se encaixem nos nossos preconceitos, mas compreendê-las-emos de um modo total; por outras palavras, tornam-se realmente simples.
Devemos ter a coragem e determinação para desistir; e quando subimos e atingimos uma certa distância, descobrimos o quanto de tolos somos ao lutar pelo que é tão trivial, tão simples. Existem tantos temas com os quais lutamos de uma forma tão complicada; mas se nós apenas nos deixássemos expandir um pouco, todos estes temas se tornavam simples, todas as complicações desapareceriam. Mas requer que nos observemos constantemente, que estejamos atentos para ver se estamos a fazer a coisa certa ou a coisa errada.
Cada um de nós sabe destas coisas de fio a pavio, e mesmo assim se o Mestre chegasse e perguntasse o que cada um de nós soube fazer, de que modo agimos na sua ausência, de que modo cumprimos o nosso papel, quais seriam as nossas respostas? É surpreendente como não conseguimos mudar, como devíamos, tal e qual uma flor. A nossa crença embora forte, não é a crença de um homem que age com uma determinação fixa. Essas são, no entanto, as pessoas que o Mestre quer ao Seu serviço, e não somente aquelas que são apenas devotas, sem que essa devoção as conduza à acção. Se nós conseguirmos pôr de lado a nossa própria evolução, e trabalhar e esquecermo-nos de nós mesmos no trabalho, então seremos verdadeiramente servis e aproximar-nos-emos do Mestre. Pode ser que eu seja jovem, que eu não tenha sofrido como os mais velhos já sofreram, mas se o sofrimento pode desalentar o entusiasmo então mais vale não tê-lo. Mas o que foi que nos ensinou o sofrimento?
Como disse no início, não existe nada tão absorvente como o estudo de nós mesmos. Esse é o único assunto sobre o qual vale a pena pensar; porque significa mudança. Não existe ninguém para forçar os mais velhos, e portanto ficam cristalizados. O que interessa é descobrir o que podemos fazer e até onde nos podemos sacrificar; quanta é a nossa força e quais as nossas capacidades. Quando vemos pessoas numa atitude de reverência, penso frequentemente no que terão feito por via do sacrifício.
Nos anos que estão para vir, ou temos que nos adaptar rapidamente à corrente em mudança, ou sair completamente dela. Quando definitivamente agarrarmos um vislumbre do Plano, por mais passageiro que seja, e sabendo que devemos continuar, simplesmente continuaremos, porque é muito mais divertido do que somente marcar o tempo. O que interessa é termos de fazer qualquer coisa para mudar. A velhice não significa que não podemos mudar. Por outro lado, é mais fácil para os mais velhos, porque eles já tiveram a experiência, e o sofrimento; no entanto continuam do mesmo velho modo de perpétua negligência. Se querem ganhar dinheiro, vão e ganhem milhões, e dêem-nos ao Mestre, e podem fazê-lo se tiverem a atitude correcta. E é o mesmo com tudo o resto que queiram fazer – escrever á maquina, estenografar ou qualquer outra coisa que desejem que seja o vosso serviço para o Mestre. A atitude é o que conta e quando chegarem lá todo o resto se seguirá.
Textos de J.Krishnamurti em Português
Por J. Krishnamurti, tal como impresso na revista The Herald of Star no número de Maio de 1925

A Arte de Escutar - Textos de J.Krishnamurti em Português


Alpino, Itália - 1ª palestra 1 de julho, 1933

Amigos, eu gostaria que fizessem uma descoberta viva, não uma descoberta induzida pela descrição de outros. Se alguém, por acaso, lhes tivesse falado sobre este cenário, teriam vindo com as vossas mentes preparadas para tal descrição, e talvez ficassem depois desapontados pela realidade. Ninguém pode descrever a realidade. Devem experimentá-la, vê-la, sentir toda a sua atmosfera. Quando virem a sua beleza e graciosidade, experimentarão uma renovação, uma aceleração na alegria.
A maioria das pessoas que pensam que estão à procura da verdade preparou já as suas mentes para a receber estudando descrições do que procura. Quando se examinam religiões e filosofias, descobrir-se-á que todas elas tentaram descrever a realidade; tentaram descrever a verdade para vossa orientação.
Não vou tentar descrever o que é para mim a verdade, já que isso seria um intento impossível. Não se pode descrever ou transmitir a outro a amplitude de uma experiência. Cada um deve vivê-la por si próprio.
Como a maioria das pessoas, vocês leram, ouviram e imitaram; tentaram descobrir o que os outros disseram sobre a verdade e sobre Deus, sobre a vida e a imortalidade. Possuem, portanto, uma imagem na mente, e querem agora comparar essa imagem com o que eu vou dizer. Ou seja, a vossa mente procura apenas descrições; não tentam descobrir de novo, tentam apenas comparar. Mas como eu não vou tentar descrever a verdade, porque ela não pode ser descrita, haverá naturalmente confusão na vossa mente.
Quando retêm uma imagem que vão tentar copiar, ou se atêm a um ideal que vão tentar seguir, jamais poderão enfrentar uma experiência completamente; nunca serão francos, nunca serão verdadeiros no que respeita a vocês mesmos e às vossas acções; estão sempre a autoproteger-se com um ideal. Se realmente sondarem a vossa mente e o vosso coração, descobrirão que vêm aqui para obter algo novo; uma ideia nova, uma sensação nova, uma nova explicação da vida, de forma a poderem moldar a vossa própria vida de acordo com ela. Por isso estão realmente à procura de uma explicação satisfatória. Não vieram com uma atitude de frescura, para que com a vossa própria percepção, a vossa própria intensidade, pudessem descobrir a alegria da acção natural e espontânea. Muitos de vocês procuram apenas a explicação descritiva da verdade, pensando que se conseguirem descobrir o que é a verdade, poderão então moldar as vossas vidas de acordo com essa luz eterna.
Se for esse o motivo da vossa procura, então não se trata de uma procura da verdade. É mais propriamente uma procura de consolo, de conforto; não é mais que uma tentativa de escapar aos inumeráveis conflitos e batalhas que têm que enfrentar todos os dias.
Do sofrimento nasceu o impulso de buscar a verdade; no sofrimento reside a causa da inquirição insistente, da procura da verdade. No entanto quando sofrem – pois todos sofrem – procuram remédio e conforto imediatos. Quando sentem uma dor física momentânea, obtêm um paliativo na farmácia mais próxima para atenuar o vosso sofrimento. Da mesma forma, quando experimentam uma angústia mental ou emocional momentânea, procuram consolo, e imaginam que tentar encontrar alívio para a dor é a procura da verdade. Dessa forma estão continuamente à procura de uma compensação para as vossas dores, uma compensação pelo esforço que são assim obrigados a fazer. Evitam a causa principal do sofrimento e vivem portanto uma vida ilusória.
Portanto, essas pessoas que estão sempre a proclamar que estão na busca da verdade estão, na verdade, a deixá-la escapar. Chegaram à conclusão que as suas vidas são insuficientes, incompletas, com falta de amor, e pensam que tentando procurar a verdade encontrarão satisfação e conforto. Se tiverem a franqueza de dizer a vocês próprios que vão apenas à procura de consolo e compensação pelas dificuldades da vida, serão capazes de procurar resolver o problema de forma inteligente.
Mas enquanto fingirem que estão à procura de algo mais que de simples compensação, não poderão ver a questão com clareza. A primeira coisa a descobrir, portanto, é se estão realmente à procura, fundamentalmente à procura da verdade.
Um homem que procura a verdade não é um discípulo da verdade. Suponham que me dizem: “Não tive amor na minha vida; foi uma vida pobre, uma vida de constante sofrimento; por isso, para obter conforto, procuro a verdade.” Devo então chamar a atenção para o facto de que a vossa procura de conforto é uma total ilusão. Na vida não existe isso de conforto e segurança. A primeira coisa a perceber é que devem ser absolutamente francos.
Mas vocês próprios não estão certos do que realmente querem: querem conforto, consolação, compensação, e no entanto, ao mesmo tempo, querem algo que é infinitamente maior que a compensação e o conforto. A vossa mente está tão confusa que num momento vocês confiam numa autoridade que lhes oferece compensação e conforto e, no momento seguinte, voltam-se para outra que lhes nega conforto. A vossa vida portanto torna-se numa refinada e hipócrita existência, uma vida de confusão. Tentem descobrir o que realmente pensam; não finjam pensar o que acham que devem pensar; então, se estiverem conscientes, totalmente vivos no que estão a fazer, saberão por vocês próprios, sem auto-análise, o que realmente desejam. Se forem totalmente responsáveis nos vossos actos, saberão então sem auto-análise o que realmente procuram. Este processo de descoberta não precisa de grande força de vontade, de grande vigor, mas apenas de interesse em descobrir o que pensam, descobrir se realmente são honestos ou se vivem numa ilusão.
Ao falar com grupos de ouvintes em todo o mundo, descubro que cada vez mais pessoas parecem não compreender o que eu digo porque vêm com ideias fixas; ouvem com a sua atitude tendenciosa, sem tentar descobrir o que tenho para dizer, mas apenas esperando descobrir o que secretamente desejam. É inútil dizer, “Aqui está um novo ideal pelo qual devo moldar-me”. Descubram de preferência o que realmente sentem e pensam.
Como é que podem descobrir aquilo que realmente sentem e pensam? Do meu ponto de vista, só o poderão fazer tendo consciência de toda a vossa vida. Descobrirão então até que ponto são escravos dos vossos ideais, e ao descobri-lo, verão que criaram ideais apenas para vossa consolação.
Onde existe dualidade, onde existem opostos, deve haver a consciência de incompletude. A mente está presa entre opostos, tais como castigo e recompensa, bom e mau, passado e futuro, ganho e perda. O pensamento é apanhado nesta dualidade, e por isso há incompletude na acção. Esta incompletude gera sofrimento, o conflito da escolha, esforço e autoridade, e a fuga do não essencial para o essencial.
Quando se sentem incompletos, sentem-se vazios, e desse sentimento de vazio surge o sofrimento; devido a essa incompletude vocês criam padrões, ideias, para sustentá-los no vosso vazio, e estabelecem esses padrões e ideais como sendo a vossa autoridade externa. Qual é a causa interior da autoridade externa que criam para si mesmos? Primeiro, sentem-se incompletos e sofrem por causa dessa incompletude. Enquanto não compreenderem a causa da autoridade, não passarão de uma máquina imitativa, e onde existe imitação não pode existir a preciosa realização da vida. Para compreender a causa da autoridade deverão acompanhar o processo mental e emocional que a cria. Em primeiro lugar sentem-se vazios e para se livrarem desse sentimento fazem um esforço; ao fazer esse esforço estão somente a criar opostos; criam uma dualidade que apenas aumenta a incompletude e o vazio. Vocês são responsáveis por autoridades externas tais como religião, política, moralidade, por autoridades tais como padrões económicos e sociais. Devido ao vosso vazio, à vossa incompletude, criaram estes padrões externos dos quais tentam agora libertar-se. Evolucionando, desenvolvendo, crescendo longe deles, querem criar uma lei interna para vocês próprios. À medida que vão compreendendo os padrões externos, querem libertar-se deles e desenvolver o vosso próprio padrão interno. Este padrão interno, a que vocês chamam de “realidade espiritual”, vocês identificam-no como uma lei cósmica, o que significa que não criaram senão outra divisão, outra dualidade.
Portanto, primeiro criam uma lei externa, e depois procuram libertar-se dela desenvolvendo uma lei interna que identificam com o universo, com o todo. É isso o que está a acontecer. Continuam conscientes do vosso egotismo que agora identificam como uma grande ilusão, chamando-lhe cósmica. Portanto, quando dizem, “Eu obedeço à minha lei interna”, não estão senão a utilizar uma expressão para encobrir o vosso desejo de se libertarem. Para mim, o homem que esteja ligado seja a uma lei externa seja a uma interna está enclausurado numa prisão; está dominado por uma ilusão. Por isso, um homem assim não pode compreender a acção espontânea, natural e saudável.
Ora bem, porque é que criam leis internas para vocês próprios? Não será porque a luta da vida diária é tão grande, tão inarmónica, que querem libertar-se dela e a criação de uma lei interna torna-se o vosso conforto? E tornam-se escravos dessa autoridade interna, desse padrão interno, porque rejeitaram somente a imagem exterior, e criaram no seu lugar uma imagem interior à qual se escravizaram.
Por este método não alcançarão o verdadeiro discernimento, e o discernimento é completamente diferente de escolha. A escolha tem que existir onde houver dualidade. Quando a mente está incompleta e está consciente dessa incompletude, tenta libertar-se dessa incompletude e em consequência cria o oposto a essa incompletude. Esse oposto pode ser um padrão tanto externo como interno, e uma vez estabelecido esse padrão, julga cada acção, cada experiência por esse padrão, e vive assim num estado contínuo de escolha. A escolha nasce somente da resistência. Se não houver discernimento, não há esforço.
Portanto para mim toda esta ideia de fazer um esforço em direcção à verdade, em direcção à realidade, esta ideia de efectuar um esforço continuado, é absolutamente falsa. Enquanto estiverem incompletos experimentarão sofrimento, e por isso estarão comprometidos com a escolha, o esforço, a luta incessante por aquilo a que chamam de “conhecimento espiritual”. Por isso eu digo que quando a mente fica aprisionada na autoridade não pode ter compreensão verdadeira, pensamento verdadeiro. E uma vez que as mentes da maioria das pessoas estão aprisionadas na autoridade – que não é mais que uma evasão à compreensão, ao discernimento – não poderão experimentar completamente a experiência da vida. Por esse motivo vivem uma vida dupla, uma vida de fingimento, de hipocrisia, uma vida na qual não existe nenhum momento de plenitude.
(Textos de J.Krishnamurti em Português)





Citação Jiddu Krishnamurti



Eu chorei, mas não desejo que os demais chorem; mas se o fizerem, agora sei o que isso significa. (...) É preciso que se libertem, não por minha causa, mas apesar de mim. Toda esta vida e, especialmente nos últimos meses, tenho lutado para ser livre – livre de meus amigos, dos meus livros, de minhas associações.
Vocês devem lutar pela mesma liberdade. Deve haver uma constante inquietação interior. Segurem um espelho constantemente à sua frente. Se houver algo indigno do ideal que criaram para si mesmos, mudem-no. Não façam de mim uma autoridade. Se eu me tornar uma necessidade para vocês, o que farão quando eu partir? Alguns de vocês acreditam que eu possa lhes dar uma bebida que os tornará livres, que posso lhes dar uma fórmula que os libertará – mas não é assim. Eu posso ser a porta, mas vocês devem passar por ela e encontrar a libertação que está além dela... A verdade chega como um ladrão – quando menos se espera por ela. Gostaria de poder inventar uma nova língua; como não posso, gostaria de destruir a velha fraseologia e antigos conceitos. Ninguém pode lhes dar a libertação. Terão de encontrá-la dentro de si, mas porque eu a encontrei, eu lhes mostrarei o caminho... Aquele que atingiu a libertação tornou-se um instrutor. Cada um de vocês têm o poder de entrar na chama, de se tornarem a própria chama... Porque eu estou aqui, se me tiverem em seus corações, eu lhes darei a força para alcançá-la. A libertação não se destina aos poucos, aos escolhidos, aos eleitos.
(Jiddu Krishnamurti)

Ensinamentos de Jiddu Krishnamurti



Os ensinamentos são importantes por si mesmos e intérpretes
ou comentadores apenas os distorcem, sendo aconselhável ir
diretamente à fonte, os próprios ensinamentos, e não se valer de
nenhuma autoridade.

O homem que vive alegre, verdadeiramente feliz, está livre de
todo esforço. Viver sem esforço não significa se tornar estagnado,
embotado, estúpido; ao contrário, só os homens sensatos,
altamente inteligentes, estão verdadeiramente livres do esforço e
da luta.

O importante não é o objeto da luta, porém, sim, compreender a
própria luta.

Poderemos ir longe, se começarmos de muito perto. Em geral
começamos pelo mais distante, o 'supremo princípio', 'o maior
ideal', e ficamos perdidos em algum sonho vago do pensamento
imaginativo. Mas quando partimos de muito perto, do mais perto,
que é nós, então o mundo inteiro está aberto – pois nós somos o
mundo. Temos de começar pelo que é real, pelo que está a
acontecer agora, e o agora é sem tempo. (Grifos meus).

Aprender não é um mero processo de acumular conhecimentos,
porém de descobrimento de extraordinárias riquezas existentes
além do alcance da mente.

Se observardes vossa mente, com serenidade e sem dardes
explicações, se deixardes simplesmente que vossa mente esteja
cônscia de sua própria luta, vereis que muito depressa surgirá um
estado no qual nenhuma luta haverá, um estado de extraordinária
vigilância. Nessa vigilância, não há idéia de 'superior' e 'inferior',
não há homem importante nem homem insignificante, não há guru.

Todos esses absurdos desapareceram, por que a mente está
inteiramente desperta. E a mente de todo desperta está cheia de
alegria.

Descontentamento é a luta pela consecução de mais, e o
contentamento é a cessação dessa luta; mas, não se chega ao
contentamento, se não se compreende todo o 'processo' relativo ao
mais, e por que razão a mente o exige.

Estamos lutando por alguma coisa e nunca nos detivemos para
investigar se essa coisa é digna de lutarmos por ela. Nunca
perguntamos a nós mesmos se ela merece nossos esforços... Só
quando tivermos compreendido inteiramente o significado do mais
é que deixaremos de pensar em termos de fracasso e de êxito.

Aqueles que realmente desejam compreender, que estão
buscando o eterno – sem início nem fim – caminharão juntos com
maior intensidade e serão uma ameaça para tudo que não é
essencial, para as irrealidades, para as sombras.

Meditação é libertar a mente de toda desonestidade. O
pensamento gera desonestidade. O pensamento, no seu esforço
para ser honesto, é comparativo e, portanto, desonesto. Meditação
é o movimento dessa honestidade no Silêncio.

Tudo o que importa ao homem inteligente é perceber os fatos e
compreender o problema – e isso não significa pensar em termos
de êxito ou de fracasso. Só quando não amamos o que fazemos
pensamos nesses termos.

Esperamos sempre que alguém nos diga o que é conduta justa
ou injusta, pensamento correto ou incorreto, e, pela observância
desse padrão, nossa conduta e nosso pensar se tornam mecânicos e
nossas reações automáticas.

Consoante a história teológica, garantem-nos os guias
religiosos que, se observarmos determinados rituais, recitarmos
certas preces e versos sagrados, obedecermos a alguns padrões,
refrearmos nossos desejos, controlarmos nossos pensamentos,
sublimarmos nossas paixões e se nos abstivermos dos prazeres
sexuais, então, após torturar suficientemente o corpo e o espírito,
encontraremos uma certa coisa além desta vida desprezível. É isso
o que têm feito, no decurso das idades, milhões de indivíduos ditos
religiosos, quer pelo isolamento nos desertos, nas montanhas,
numa caverna, quer peregrinando de aldeia em aldeia a esmolar,
quer em grupos, ingressando em mosteiros e forçando a mente a
ajustar-se a padrões estabelecidos. Mas, a mente que foi torturada,
subjugada, a mente que deseja fugir a toda agitação, que renunciou
ao mundo exterior e se tornou embotada pela disciplina e o
ajustamento – essa mente, por mais longamente que busque, o que
achar será em conformidade com sua própria deformação.

A causa primária da desordem existente em nós é estarmos
buscando a realidade prometida por outrem.

Estou apenas a ser como um espelho da vossa vida, no qual
podeis ver-vos como sois. Depois, podeis deitar fora o espelho; o
espelho não é importante.

A compreensão de si próprio é o começo da sabedoria.

Qualquer espécie de filosofia e qualquer espécie de teologia
representam, meramente, uma fuga à realidade do que é.

Não podeis depender de ninguém. Não há guia, não há
instrutor, não há autoridade. Só existe vós, vossas relações com
outros e com o mundo, e nada mais.

Normalmente, gostamos de culpar os outros, o que é uma
forma de autocompaixão.

O intelecto não constitui o campo total da existência. Ele é um
fragmento, e todo fragmento, por mais engenhosamente ajustado,
por mais antigo e tradicional que seja, continua a ser uma parte
insignificante da existência, e nós temos de nos interessar pela
totalidade da vida. Quando consideramos o que está ocorrendo no
mundo, começamos a compreender que não há processo exterior
nem processo interior; há só um processo unitário, um movimento
integral, total, sendo que o movimento interior se expressa
exteriormente, e o movimento exterior, por sua vez, reage ao
interior.
( Jiddu Krishnamurti)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Estatísticas e curiosidades sobre livros



Onde há mais livrarias no Brasil


(livrarias por habitantes)
DF ..... 1 para 30.840
RJ ..... 1 para 44.415
SE ..... 1 para 50.665
SP ..... 1 para 59.171
  TO ..... 1 para 181.131


E no mundo


EUA ..... 1 para 15 mil
Argentina ..... 1 para 50 mil
Brasil ..... 1 para 70 mil
México ..... 1 para 170 mil


Você sabia?
O brasileiro lê, em média 4, 7 livros por ano contra 10 nos EUA ou na França e 15 nos países nórdicos. Dos 4,7 livros lidos pelos brasileiros,apenas 0,9 não são livros didáticos.


A Unesco ( Organizações das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) recomenda que haja uma livraria para cada 10 mil pessoas .No Brasil ,com 190 mil habitantes,temos 2.700 livrarias uma para cada 70 mil habitantes. Fonte : Jornal do senado.


Um site interessante para quem queira visitar é o Biblioteca de Ciências e Licenciatura no endereço.http://librarysciencedegree.org/

Educadores libertados


Meirevaldo Paiva


Se Marx se perguntasse, hoje, 'quem educa os educadores', enfatizaria a formação intelectual, política, cultural e libertadora do educador e não realçaria a figura do professor ou do instrutor limitados por alienantes currículos. Marx não imaginaria, porém, que, num contexto de circunstâncias manipuladas, o conceito de educador pudesse ser corrompido pelo capital, fazendo com que o perfil do educador pudesse ser comparado a um tipo de empresário, de um comerciante ou de um sofista da educação.
A própria sociedade brasileira já não faz a diferença entre o educador e o mercenário da educação graças à mídia que sustenta, massifica e fortalece essa espécie de comércio de informações, conhecimentos e diplomas na lógica neoliberal que se apropriou espertamente dos conceitos democráticos, humanistas e universais para fazer valer suas ideologias de mercado e de consumo.
Mas, se os educadores não estão sob os holofotes da mídia, por onde andarão e o que estarão fazendo que não rompem com a invisibilidade a que estão submetidos pelo sistema oficial, pelos 'donos' das escolas e das universidades, pelas elites que se sentem incomodadas com a práxis da libertação de consciências e de sentimentos que formam homens e mulheres livres para reinventar a democracia brasileira?
Os educadores estão espalhados pelas comunidades periféricas, pelas universidades, pelas escolas fundamentais e médias e por todos os lugares em que seja necessária a presença de um educador – docência, imprensa, saúde, trabalho, política - para decifrar o mundo, interpretá-lo e transformá-lo pelo conhecimento e pela cultura, pela razão e pela emoção, utilizando-se para isso da cotidianidade comum a todos.
Se a sala de aula é identificada por uma relação dialógica, de perguntas, interrogações, questionamentos, a resposta exige tempo de estudos, de reflexões, de pesquisas, de se preparar política e culturalmente para responder aos interlocutores na família, na rua, na sociedade. É a educação continuada e permanente para a autonomia intelectual e política para o discernimento e para a lucidez.
É o caso da professora de Salto de Pirapora (SP) que vasculha o cotidiano por meio da leitura de jornal bancado também pelos seus alunos de duas turmas de 6ª série mediante 'vaquinha' que paga a assinatura que não cabe mais no bolso da mestra. Pela via do jornal e de outras mídias há todo um processo de leitura, compreensão e interpretação de textos ou da palavra transformadora de circunstâncias e mais a reflexão crítica de tendências políticas, econômicas e culturais da mídia convencional e alternativa que objetiva, no processo de ensino e educação, a formação de um leitor sem cabrestos ideológicos.
No Para e no Amapá, a leitura do jornal em sala de aula revela a excelência profissional de muitos professores por um trabalho de qualidade pedagógica que os aproxima inclusive, das comunidades. O Programa 'O LIBERAL na Escola' recolhe há anos relatos e testemunhos de como se faz ensino com educação em sala de aula, como uma aula é oxigenada pela realidade do entorno da escola, como o professor se transforma num educador, num orientador e num sábio disponível para transformar as misérias humanas, sociais, econômicas dos alunos em um mundo de maiores possibilidades humanas.
São esses professores de Belém, Macapá, Castanhal, Santarém, Rio de Janeiro, São Paulo que anonimamente, invisíveis para os sistemas, sem quaisquer recursos materiais modificam o rotineiro ensino num trabalho coletivo de educação em que crianças, adolescentes e jovens aprendem a pensar, a falar, a agir, a dirigir-se ao outro sem medo e sem controladores escolares que lubrificam a manutenção dos amortecedores sociais.
São esses educadores que se educam pelos saberes populares e com eles compartilham conhecimentos, abrem perspectivas de mundo para milhares de crianças, adolescentes e jovens, e não se deixam seduzir pelas elites dominantes que privatizam o conhecimento para evitar que o povo seja o dócil rebanho dos colonizadores neoliberais.
Meirevaldo Paiva é educador
Artigo publicado no jornal O Liberal (11.02.2008)

Inteligência Espiritual



Artigo de Conceição Cavalcanti, coordenadora do programa Leitor do Futuro - Diário de Pernambuco/PE “Inteligência espiritual tem a ver com quem eu sou e com os meus valores. Precisamos alimentar essa inteligência para motivar a cooperação – entre família, a comunidade, os países. Só assim vamos encontrar soluções positivas para o planeta, e nos encontrar nessa busca também”. Danah Zohar

Para Danah Zohar física e filósofa autora do livro Inteligência Espiritual feito em conjunto com o psicoterapeuta Ian Marshall a inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade. Diz ainda que “vivemos numa cultura estúpida, mas podemos agir para elevar nosso quociente espiritual”. Segundo ela, a inteligência espiritual seria um terceiro tipo de inteligência a qual aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado para a vida. Ora, somos seres essencialmente questionadores e desde tempos remotos o homem ergue-se para o mundo que o cerca e pergunta: quem sou? Qual a minha relação com a natureza? O que torna a vida digna de ser vivida? Enfim, questionamentos da ordem do ser. Hoje, são muitos os estudiosos que pesquisam e buscam através das ciências respostas para o lado invisível das coisas. Entre eles está o indiano Amit Goswami e em entrevistas para os meios de comunicação afirma que a base da criatividade é a inteligência que se baseia nas percepções sutis e na intuição e esta seria a inteligência espiritual, que o mesmo chama de “supramental”. Estudioso das relações entre razão e intuição ele diz que nem tudo é racional, matemático. Nos últimos 50 anos desenvolvemos uma visão de mundo materialista e individualista. Voltada para o consumo , para o prazer imediato, envolvidos pelas imagens, uma visão que reforça os lados sensorial e mental. Você já ouviu falar do “Ponto de Deus”? Os cientistas descobriram no cérebro uma área nos lobos temporais que nos faz buscar um significado e valores para nossa vida e a esta área eles denominaram o Ponto de Deus. Enquanto a inteligência emocional nos permite julgar em qual situação nos encontramos, reconhecer nossos sentimentos e padrões comportamentais e assim escolher a melhor forma de se comportar em cada uma a inteligência espiritual nos remete ao campo da vontade e da indagação do quanto queremos estar em determinadas situações. Em quase todos os contextos há excesso de acessórios, por isso, vivemos distanciados do essencial e passamos à margem de uma discussão mais acurada sobre valores, crenças, ética e o que de fato é vital em nossas vidas e em nossas relações. Espero que esta leitura lhe motive a buscar além do que você já conhece. Quero também dizer a você que me acompanha através desta coluna, você que utiliza esses textos com seus alunos, debate com seus amigos, você que faz circular os conteúdos deste espaço, você é muito importante neste contexto, do contrário, com quem iria compartilhar da minha alma, das minhas esperanças, crenças, valores e manter-me sustentada na utopia necessária para seguir adiante.

A paz em cada um


Conceição Cavalcanti


“A educação para a paz implica na educação do educador”. Esse pensamento fundamenta uma das muitas teorias do psicólogo francês Pierre Weil fundador da Universidade Internacional da Paz ( UNIPAZ ), que dedicou toda uma vida em prol de uma sociedade com menos conflitos.
Infelizmente, no último dia 10 de outubro, esse mundo em busca da fraternidade perdeu um de seus grandes ativistas, que deixou um vazio só preenchido pelos seus ensinamentos e pela vontade de continuar sua grande obra.
Em um de seus comentários, Weil afirmava que “a violência impera no mundo, seja nos países ricos ou pobres e que antes de tudo é preciso acontecer uma transformação no processo educacional”. Para ele não adianta “ensinar” a paz por meio de frases bonitas e de argumentos intelectuais. “É necessário atingir o caráter, as emoções, os sentimentos. E isto é uma questão de educação, muito mais que de ensino e instrução”.
Repensar a forma que fazemos a educação, os modelos cristalizados ainda usados é nosso dever. Temos uma educação que enfatiza o corpo e o intelecto. Trabalhar as emoções, os sentimentos no ambiente escolar se faz vital para a formação de um cidadão. Experimentar, vivenciar e sentir o que é viver em paz consigo mesmo, com os outros e com o ambiente exige tempo e aprofundamento. Exige silêncio. Quantas escolas ensinam a importância de silenciar para se ouvir?
Sentimentos como raiva, ciúme, inveja, cobiça e outros geradores de violência devem ser parte do currículo para que todos possam conhecer seus aspectos destrutivos e com isso buscar restabelecer uma conexão entre mente, espírito e vida emocional. Pierre Weil se dizia cidadão do mundo, sonhava com uma Universidade, uma Instituição, que estivesse a serviço da paz e da educação, o sonho que se realizou.
Autor de muitos livros dedicou seus conhecimentos à criação de programas, seminários e modelos educacionais. Entre as muitas publicações, escreveu “ A Arte de Viver em Paz” fruto de um seminário de mesmo nome, onde se compartilham reflexões e vivências sobre a paz consigo mesmo e com o mundo ao redor. Sua proposta é transformar violência em amor.
Diante de tantas tragédias como o caso recente de Eloá seqüestrada e morta pelo ex namorado e frente à declaração de um pai que diz: “a polícia devia ter atirado no meu filho” fica a pergunta: onde encontrar essa paz ? Como ensiná-la? Como vivê-la?
Nesses tempos de guerra, conflitos e desencontros, de escolas alvejadas, professores seqüestrados, alunos armados e gestores paralisados, conhecer a história do Beija-flor que Weil narrava em suas palestras, traz alento e esperança. Entender que o ponto de partida é buscar a harmonia interior, fazer brotar e articular o equilíbrio entre mente, corpo e emoções já é um início para uma mudança que se faz urgente.
Cada um fazendo a sua parte, semeando, educando a si e ao outro, sendo colo que acolhe como declama Cora Coralina é o caminho para sermos uma humanidade feita de gente de verdade.
Quer saber mais sobre uma cultura de paz na educação? Conheça a UNIPAZ, fone (81) 3244-2742
Conceição Cavalcanti é a coordenadora do Programa Leitor do Futuro, do Diário de Pernambuco (PE)

Educação: duas visões



Artigo do ministro da Educação, Fernando Hadad, na Folha de São Paulo (29/03/2009)

A ADESÃO dos 27 governadores e 5.563 prefeitos ao Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), do governo federal, pode passar a falsa impressão de que há consenso acerca do que precisa ser feito pela educação brasileira.
De fato, o Ministério da Educação, de comum acordo com os gestores locais, definiu 28 diretrizes, como avaliação por escola, escolha criteriosa de diretores, obrigatoriedade de aulas de recuperação para alunos defasados, regulamentação do estágio probatório, valorização do mérito e da carreira de professor, promoção da educação infantil etc.
Além disso, fixou para o país, para cada rede e cada escola metas de qualidade, valendo-se do Ideb, indicador de qualidade que combina o resultado dos exames nacionais de proficiência em matemática e leitura e as taxas de aprovação.
Havia grande resistência na divulgação dos resultados por escola, mas mesmo os governos estadual e municipais que não aderiram à Prova Brasil em 2005 foram vencidos pela evidência de que esse é um direito das famílias que contribui para a melhoria da qualidade e da gestão da educação. Contudo, se há acordo em relação a diretrizes e metas, o mesmo não pode ser dito em relação a estratégias.
O Brasil, dessa forma, se transformou num enorme laboratório em que várias concepções de educação vão sendo testadas, e experiências, trocadas, tendo como pano de fundo o direito fundamental do aluno de aprender.
É possível, dois anos após o lançamento do PDE, agrupar essas estratégias em torno de dois eixos: um mais progressista e um mais conservador. Mais ou menos financiamento? Os especialistas se dividem. Alguns defendem que o patamar herdado de investimento público em educação como proporção do PIB, de 4%, é suficiente e que o problema reside na gestão desses recursos. Outros defendem a ampliação dos investimentos para, no mínimo, 6%, com melhor gestão. O governo federal pretende atingir, em 2010, a meta de 5%, em trajetória ascendente.
Os conservadores, na reforma tributária, trabalham nos bastidores pela desvinculação de receitas dos Estados para a educação, a chamada DRE; os progressistas comemoram a iminência do fim da DRU, dispositivo constitucional que, desde 1995, retira mais de 20% do orçamento do Ministério da Educação. Avaliação para quê? Premiar e punir, sugerem alguns.
Aqui há que considerar certos aspectos. Se não acompanhado de aumento do financiamento, mais recursos para escolas que cumprem metas de qualidade pode significar menos recursos para as que não cumprem. Isso pode implicar punir uma segunda vez alunos de escolas que não avançam.
Outra possibilidade é aquela que, ao ampliar o financiamento, promove as transferências adicionais de recursos, combinando a lógica do mérito à da colaboração: repasses automáticos para escolas que cumprem metas, ampliando sua autonomia, e repasses condicionados à elaboração, com apoio técnico, de um plano de desenvolvimento pedagógico e formação de professores para escolas cujos indicadores de qualidade as situem abaixo da média. O MEC, desde 2007, de forma pioneira, repassa diretamente recursos adicionais para as escolas públicas do país utilizando esse critério.
Por fim, o mais importante: a questão dos professores. Uma ala faz recair sobre os ombros do magistério toda a responsabilidade pela baixa qualidade do ensino. As instituições de ensino superior que os formam e os gestores que os contratam quase nunca são lembrados, embora baixos salários, contratos temporários e formação inicial e continuada precária sejam a regra em nosso país. Reforça-se, assim, aquilo que Theodor Adorno chamou de "tabus acerca do magistério", num ensaio mais do que atual.
Noutro polo estão os que entendem que "os melhores professores do Brasil são os professores do Brasil" e que a guerra contra a má qualidade do ensino se ganha com eles, e não contra eles. Defendem o piso nacional do magistério, constroem a carreira com a categoria e procuram corresponsabilizar a classe política e as instituições formadoras pelos destinos da educação.
Nessa direção, o Ministério da Educação, a partir de 2005, divulga o Ideb de cada rede de ensino às vésperas de cada eleição e, por meio do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), fecha cursos de licenciatura de baixa qualidade. Como se vê, o Brasil deu importantes passos, mas há muito debate pela frente.
FERNANDO HADDAD, 46, advogado, mestre em economia, doutor em filosofia e professor de teoria política da USP, é ministro da Educação

A cegueira nossa de cada dia



Conceição Cavalcanti



_ "Por que foi que cegamos?
_ Não sei. Talvez um dia se chegue a conhecer a razão.
_ Queres que te diga o que penso?
_ Diz.
_ Penso que não cegamos. Penso que estamos cegos. Cegos que vêem. Cegos que vendo não vêem."
Acima temos um pequeno trecho do livro Ensaios sobre a cegueira do escritor José Saramago, livro que foi roteiro para o filme do mesmo nome dirigido por Fernando Meirelles.
Afinal, de que cegueira Saramago e Meirelles nos falam?
Ao longo de uma relação que vimos estabelecendo a cada sábado através dessa coluna tenho compartilhado com vocês por meio dos temas abordados das minhas angústias, esperanças e possibilidades. Hoje compartilho de mais uma reflexão.
O filme tem causado perplexidade, repugnância, espanto, encantamento, reflexão e mais um número infinito de sentimentos e emoções com doses de estranhamento e reconhecimento. Está tudo ali, nossos instintos mais primitivos, nossas pretensões, medos, desejos, ideologias, paradigmas, conceitos de certo e errado, homens, mulheres e crianças de repente “unidos” por um fio dramático que irá impor a cada um a necessidade do outro.
Mais um trecho do livro: “o medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos”.
Alguma semelhança com a nossa sociedade? Nos escondemos em carros blindados com vidros escuros, condomínios de luxo – para quem pode- enxergamos apenas o que está em nosso universo, o que nós “incluímos” e conceituamos como parte de nossa vida. Estamos sendo uma sociedade do concreto, da objetividade, do ruído e da velocidade.
Conferências, encontros internacionais entre líderes, reuniões, discussões inúmeras para se debater o avanço da violência, da destruição do planeta, do tráfico de drogas, da exploração infantil, da fome – o número de famintos no planeta aumentou segundo Jacques Douf diretor geral da FAO – ações importantes, mas que vão na contramão do crescimento desenfreado, da ambição e da ação exercida de forma prática e efetiva colocando em desvantagens as ações que não saem do papel e do discurso. É aceitável em pleno século 21 gente morrendo de fome?
O filme nos fala de uma “família humana”. Da forma que estamos nos enxergando somos esta família? Quais são os grandes dilemas éticos atuais?
Talvez o filme exija de nós uma olhar transcendente no qual se alcance as coisas do corpo e as coisas da alma e que entre o sutil e o grotesco façamos a escolha pelo sutil, pelo belo, pelo amor e por uma civilização imbuída de valores onde “mais do que olhar, importa reparar no outro”.
E então? Que tal assistir o filme, promover uma discussão entre amigos, alunos, familiares, pares, enfim olhar para si e “ver” como você pode contribuir para transformar. As vezes tirarmos o óculos escuros é um bom começo.
Conceição Cavalcanti é coordenadora do Programa Leitor do Futuro, do Diário de Pernambuco (PE)