segunda-feira, 18 de julho de 2011

A cegueira nossa de cada dia



Conceição Cavalcanti



_ "Por que foi que cegamos?
_ Não sei. Talvez um dia se chegue a conhecer a razão.
_ Queres que te diga o que penso?
_ Diz.
_ Penso que não cegamos. Penso que estamos cegos. Cegos que vêem. Cegos que vendo não vêem."
Acima temos um pequeno trecho do livro Ensaios sobre a cegueira do escritor José Saramago, livro que foi roteiro para o filme do mesmo nome dirigido por Fernando Meirelles.
Afinal, de que cegueira Saramago e Meirelles nos falam?
Ao longo de uma relação que vimos estabelecendo a cada sábado através dessa coluna tenho compartilhado com vocês por meio dos temas abordados das minhas angústias, esperanças e possibilidades. Hoje compartilho de mais uma reflexão.
O filme tem causado perplexidade, repugnância, espanto, encantamento, reflexão e mais um número infinito de sentimentos e emoções com doses de estranhamento e reconhecimento. Está tudo ali, nossos instintos mais primitivos, nossas pretensões, medos, desejos, ideologias, paradigmas, conceitos de certo e errado, homens, mulheres e crianças de repente “unidos” por um fio dramático que irá impor a cada um a necessidade do outro.
Mais um trecho do livro: “o medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos”.
Alguma semelhança com a nossa sociedade? Nos escondemos em carros blindados com vidros escuros, condomínios de luxo – para quem pode- enxergamos apenas o que está em nosso universo, o que nós “incluímos” e conceituamos como parte de nossa vida. Estamos sendo uma sociedade do concreto, da objetividade, do ruído e da velocidade.
Conferências, encontros internacionais entre líderes, reuniões, discussões inúmeras para se debater o avanço da violência, da destruição do planeta, do tráfico de drogas, da exploração infantil, da fome – o número de famintos no planeta aumentou segundo Jacques Douf diretor geral da FAO – ações importantes, mas que vão na contramão do crescimento desenfreado, da ambição e da ação exercida de forma prática e efetiva colocando em desvantagens as ações que não saem do papel e do discurso. É aceitável em pleno século 21 gente morrendo de fome?
O filme nos fala de uma “família humana”. Da forma que estamos nos enxergando somos esta família? Quais são os grandes dilemas éticos atuais?
Talvez o filme exija de nós uma olhar transcendente no qual se alcance as coisas do corpo e as coisas da alma e que entre o sutil e o grotesco façamos a escolha pelo sutil, pelo belo, pelo amor e por uma civilização imbuída de valores onde “mais do que olhar, importa reparar no outro”.
E então? Que tal assistir o filme, promover uma discussão entre amigos, alunos, familiares, pares, enfim olhar para si e “ver” como você pode contribuir para transformar. As vezes tirarmos o óculos escuros é um bom começo.
Conceição Cavalcanti é coordenadora do Programa Leitor do Futuro, do Diário de Pernambuco (PE)

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