segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os livros somem das bibliotecas




Salomão Larêdo
O acervo das bibliotecas das escolas da rede pública – quando existem biblioteca e acervo, o que é raro - está sumindo. Essa infelizmente é uma constatação cruel.

Estava recentemente numa escola pública para uma conversa com os estudantes sobre livro e leitura _ no meu fado de mais de vinte anos em escolas e outros locais onde me convidam e vou, de graça, no apostolado de formar leitor com consciência pública _ e, como sempre, levava em mãos alguns livros para serem doados à biblioteca e outros para serem sorteados entre os alunos. Ao falar disso à professora, ela foi logo me alertando:

- Olhe não lhe aconselho deixar na biblioteca. Os livros estão sumindo!

- Sumindo !?! Como !?! –

É isso mesmo que você está pensando leitor. O furto do livro existe e não é para ler e sim para vender e, com o que o furtador consegue lucrar, compra cigarro ou bebida.
Já comprei livros em sebo que estavam com todos os carimbos, fichas, controle magnético, código de barra e fui devolver à origem, que era a Biblioteca Pública Arthur Vianna, no Centur (PA). Entreguei ao diretor do departamento de otimização da leitura, bibliotecário Osmar Arouck, que ficou pasmo como aqueles, três livros grandes puderam sair sem que o autor da façanha tenha sido descoberto.
Se, por um lado, o fato de furtar livro poderia ter um fim de que alguém iria fruir sua leitura, a gente entenderia; mas, o interesse não é de leitura e sim, de conseguir alguns trocados.
Talvez valesse uma campanha das instituições entre quem vende livro usado ou antigo _ os chamados pontos de sebo _ para que não se tornem receptadores de livros usados. Talvez essa situação pudesse ser controlada ou pelo menos, amenizada ou freada.
Parece-me, contudo, que um das raízes esteja em casa, na família. E aqui não vou me alongar, porque todos conhecemos a situação familiar, hoje vítima do desemprego, do desamor, da violência que é decorrente de um sistema que jamais vai investir em educação que liberta o homem, preferindo construir prisões de segurança-máxima para interditar o ser humano que perverteu.
Mas, uma questão que é logo detectada, é a de que, seguramente, a escola não tem biblioteca. No máximo, conseguiu um depósito de livros. Pois, se houvera biblioteca, esta teria todas as condições: amplo espaço, refrigeração, cadeiras confortáveis e o tratamento técnico do livro que só pode ser feito por pessoa habilitada, ou seja, um bibliotecário. Uma biblioteca com bibliotecários para cuidar do livro, atender leitor, ajudar a encontrar o livro, orientar leitores, seguramente toma todas as providências – registros e carimbos nos livros – para que o livro possa sempre ser localizado, evitando o sumiço do livro, a diminuição do acervo que já é tão pequeno, para evitar situações a que me reporto neste artigo
Onde não há controle e qualquer um cata o livro, este some e o acervo se acaba. A isso não se pode chamar de biblioteca. Quando muito, é um lugar onde se sonhou ou desejou alguma vez pensar em biblioteca e lá se acumulam, todos os bagulhos ou terens da escola, onde a poeira fez abrigo, os ratos e aranhas armaram suas tendas e, misturados ou no meio de tudo, há alguns livros de diversos tipos e gêneros. Como não há também gente habilitada para tomar ao menos conta daquilo, vira, desculpem, “casa da mãe Joana”, conforme o ditado popular.
Há muitas ações isoladas de pessoas interessadas em formar biblioteca, espaço de leitura, ou seja, um lugar adequado para colocar livros onde os interessados possam consultar, com prazer, conforto e segurança.
Há, eu sei, por parte das instituições, muitos treinamentos para que funcionárias que não são bibliotecárias e estão em disponibilidade, possam quebrar o galho no abrir e fechar o espaço e fazer algum atendimento, de forma precária porque o lugar é precário, isso para não falar do salário precaríssimo.
Na verdade, o que é certo é que devemos exigir do poder público, que em todas as escolas, existam bibliotecas com todos os seus requisitos, sobretudo, a presença de quem tem que estar lá: o bibliotecário.
Todos temos direito à cultura, ao direito de ler, de estar informado, de possuir conhecimento, de ter biblioteca com boas obras e acervo que seja sempre atualizado.

É preciso haver concurso público para essa função específica e se ainda não for possível, que haja contrato – por algum tempo - para esse profissional que é tão útil e importante quanto o médico, o advogado, o astronauta, o arquiteto, o economista e outros.

Enquanto a sociedade civil não pugnar por uma rede de bibliotecas em todas as escolas e escalas: nos bairros, nas creches, clube de mães, paróquias, clubes de futebol associações, entidades outras e, inclusive no fórum de justiça, nos tribunais de contas... teremos um arremedo dessa situação e não mudaremos quase nada. Mais! Talvez, com um rasgo de sorte, ainda assistamos, via satélite, a última viagem de trem transferindo nossa riqueza mineral que está sendo extraída com avidez _ às toneladas_ diariamente, sem que façamos nada, certamente sonolentos pelas copas e cozinhas e o que é pior, sem que essa riqueza traga alguma valia para nós. Vale a pena viver assim nesta Amazônia rica em todos os seus reinos e com povo paupérrimo e sem terras e sem perspectivas?
Em 2006 escrevi um artigo chamado “vamos fazer de 2006 o ano da leitura“ e conclamei a todos que exigissem que o Ministério Público fiscalizasse para que as bibliotecas fossem criadas e disponíveis inclusive fora dos horários padrões e que funcionassem nas comarcas, nos navios, ônibus, nos barcos, nos trens, nas rabetas, ao menos uma caixa com livros para quem quisesse viajar lendo e que cada um se empenhasse em formar bibliotecas, a “ esquecer um livro” em lugares movimentados para que outro pegue e leia.
Não posso dizer ainda - com tudo isso que solicitamos, que não é nenhuma novidade, - como a coisa está ou ficou. Lamento informar que, de do início de 2006 para cá, constatei que o furto de livros tem aumentado muito nas chamadas “ bibliotecas” das escolas.

Espero, num outro momento, trazer boas novas nessa área. Ainda temos tempo para fazer com que as boas ações do livro gerem frutos e não apenas furtos.

Salomão Larêdo é escritor e Coordenador Geral do Programa O Liberal na Escola, do Jornal O Liberal (Belém/PA)

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